


R. Santana
Convivi pouco tempo com meu João Zabelinha e minha avó Guiomar Rodrigues. Minha avó era uma mulher do trabalho doméstico, não era dada às grandes emoções, quando algo anormal acontecia com um dos 18 filhos, ela não se derretia em lágrimas, era forte como uma rocha. Meu avô, ao contrário, era um homem emoção, sensível e humano. Quando sua filha Raquel, a mais velha (naquela época, com 22 anos de idade), morreu afogada, ele se desmanchou em lágrimas o tempo todo, alguém conhecido, condoído pelo seu sofrimento e supersticioso lhe disse:
- Seu João, dizem os mais velhos que quando alguém morre afogado, coloca-se uma fina camada de farinha no corpo e, ele se reanima – meu avô encheu de farinha o corpo da filha, mas a razão venceu a ignorância.
Ele não era muito dado à agricultura, naquela época o plantio de fumo era o responsável pela receita de alguns municípios, em particular, o município de Lagarto, que ao seu redor se formava um cinturão de malhadas cuja agricultura principal era o fumo, depois, o milho, a batata doce, a laranja, o caju, a manga, o gado confinado, etc. A malhada equivale ao sítio de outras regiões do Nordeste, é uma área de mais ou menos de 2 hectares com cerca viva de macambira ou cerca de arame farpado.
Os parentes mais antigos passavam para gerações mais novas que João Zabelinha, ainda moço, comprou um sítio no riacho da Macuna e fez uma pousada para os comboieiros que abasteciam: Simão Dias, Riachão do Dantas, Boquim, Salgado, Itaporanga d'Ajuda e Campo do Brito, São Domingos, Macambira e Pedra Mole. Naquela época, o meio de transporte no interior não era o caminhão mas, as tropas de burros, de cavalos, de jumentos, de mulas, de carro-de-bois e o lugar mais aprazível para pernoitar próximo de Lagarto, era o rancho do “Boiadeiro” de João Zabelinha.
Os animais levavam um panacum de cada lado com feijão, açúcar, café, macarrão, arroz, fósforo, pacotes de cigarro, fumo de rolo, sabão, utensílios femininos, tecidos, etc. Eles abasteciam as bodegas e as pequenas lojas do interior sergipano. Geralmente, o comboio era constituído de 5 animais, às vezes mais, com o burro-madrinha na frente.
O ponto de apoio era o rancho do “Boiadeiro” de João Zabelinha, lá, um grande salão acolhia os comboieiros, com redes limpas para dormir, talhas para o banho e um porrão de barro de 200 litros de água para beber ou cozinhar, na bodega contígua havia muita coisa para comer e não dormir em jejum, nos pastos os animais se refestelavam com capim viçoso e consistente e água no riacho Macuna.
João Zabelinha, solícito e amigo de todos. Os tropeiros tinham-no com benquerença, Se algum desavisado reclamasse da hospedaria ou se ousasse com uma das filhas de “seu João”, de acordo o ocorrido, tomava sopapos e, era expulso da pousada em qualquer hora da noite ou do dia.
Os comboieiros organizavam jogo de dominó ou de cartas para passar o tempo, os mais românticos dedilhavam suas violas e cantavam à luz da lua, era uma maneira de relaxar o corpo e a mente e alegrar o ambiente para pegar o caminho no dia seguinte e parar na cidade mais próxima para vender seus produtos primários e quinquilharias.
No fundo da casa havia tudo que a molecada gostava: cajueiro, mangueira, laranjeira, jaca e uma grande fauna com pássaros, preás, tatus, calango e no riacho Macuna, muito peixe, não havia fome, não havia necessidade.
A molecada estudava pela manhã, quando chegavam da escola, as meninas iam ajudar a mãe nos afazeres da casa e os meninos mais taludos iam ajudar o pai na pousada. A pousada não parava, saiam uns comboieiros e entravam outros. A estada dos comboieiros era de 5 réis por noite e se o sujeito fosse passar mais de uma noite, havia um desconto, 2 noites ficavam por 8 réis e 20 tostões.
Porém, o mundo gira, outros interesses se impõem, os meninos de outrora estavam rapazes; as meninas, moças feitas; João Zabelinha e dona Guiomar já cansados e doentes; venderam o rancho da Macuna e compraram uma casa com grande pomar e uma malhada no “Coqueiro”, na vizinhança de Lagarto.
No Coqueiro, meus avós viram os netos chegar. A maioria dos filhos voou para outros lugares distantes. Ficaram quase sozinhos num enorme casarão, de quando em vez, filhos e netos iam visitá-los. Meu avô, um homem lúcido e inteligente, fumante inveterado de fumo de rolo, ficou cego em idade decrépita, mas não havia empecilho para dirigir as necessidades de sua casa. Filhos criados e encaminhados, netos e bisnetos, ele faleceu no lugar que mais amou: o Coqueiro e sua gente.
Quando conheci meu avô no Coqueiro, eu deveria ter uns 6 ou 7 anos, ele já tinha idade avançada. Ficava feliz quando ele me tomava como guia e saíamos visitando seus velhos conhecidos. Poder guiar aquele velhinho simpático e carismático, deixava-me cheio de prazer e orgulho infantis, principalmente, em toda casa que nós chegávamos, ele era recebido como se fosse um parente próximo.
Infelizmente, a História não registra esses heróis anônimos. João Zabelinha foi um herói, teve 18 filhos, em um lugar que oferecia precárias condições de sobrevivência. Todos os filhos e filhas cresceram no caminho do bem e no respeito e amor ao próximo. Ele não morreu, desencantou-se e, em algum lugar, ele continua orando por todos nós, até o dia Juízo Final
A minha avó morreu logo depois do marido, na cidade de Lagarto. Uma grande mulher de alma pura, nesse mundo, como todos nós, foi santa e pecadora.
Fonte oral: Marizete Batista Alves
Autoria: Rilvan Batista de Santana
Foto: Produção
Imagem: Google
Ponto de Leitura: https://rilvanbatistadesantana.blogspot.com