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Os invisíveis - R. Santana
 
"Filhos... Filhos? / Melhor não tê-los! / Mas se não os temos / Como sabê-los? - Poema Enjoadinho de Vinicius de Moraes"

Dentre os invisíveis brasileiros, os idosos chamam à atenção porque são marginalizados, em especial, pela família. Os idosos são excluídos da sociedade, do grupo familiar e da vida pública. As políticas públicas e sociais de atendimento ao idoso são lamentáveis e sua aposentadoria não lhe dá dignidade pra morrer. Noutros países quando o “velho” se aposenta, além dele ser respeitado pela sua experiência e sabedoria, o estado lhe proporciona dignidade de vida com aposentadoria decente e políticas públicas que atendem suas necessidades do remédio ao lazer.
Porém, não é só o estado que não lhe reconhece, o setor privado fecha-lhe as portas. Nenhum banco lhe financia um veículo motorizado ou bem maior, depois de certa idade. O idoso compra esse bem maior se tiver condições in casch, isto é, em dinheiro. Pequenos empréstimos são feitos ao idoso se o crédito for consignado em sua aposentadoria e exíguo tempo. Existe também a impossibilidade do “velho” vender um bem sem o aval da família.
O mercado de trabalho é ainda mais rigoroso com o idoso. Hoje, o indivíduo com 50 anos de idade, começa ter restrição empregatícia na maioria das empresas, salvo, se sua formação profissional especializada for escassa: mais necessidade na empresa e menos trabalhadores especializados.
O “velho” não tem vida social, não tem vida esportiva e não tem lazer. Mesmo que seja uma pessoa de recursos, ele tende voluntariamente, escusar-se de ambientes jovens, pois, encontrará um ambiente falso, escorregadio, sem interação. Agora, que os contatos são virtuais nas redes sociais, o idoso num ambiente que a maioria é adulta e jovem, ele sentir-se-á como um peixe fora d´água.
Os idosos que têm comorbidades de lucidez e locomoção e que ficam aos cuidados de profissionais geriatras, às vezes, eles são admoestados e maltratados com agressão física e moral. É comum quando a família a despeito de não ter tempo nem amor, ela contrata esses profissionais cuidadores que suprem essas necessidades.
Não faz muito tempo, recebi pelo WhatsApp, a história de uma senhorinha que é a história de muitos idosos que moram com filhos e noras ou que os filhos e noras moram em suas casas. Que essa senhorinha se manifeste:

“Quando meu filho se casou, ele e minha nora vieram morar comigo. Cedi o meu quarto para o casal, um ano depois, eu deixei o outro quarto para minha neta que nasceu. Os anos foram passando, mais uma neta veio ao mundo.

Criei as netas como se fossem minhas filhas, aliás, o provérbio popular diz que neto é filho duas vezes. Enquanto elas estavam pequenas, eu gozava do amor ilimitado delas. Elas eram tudo na minha vida, mais do que a terra, o céu e o mar. Porém, a felicidade é feita de momentos, momentos pequenos, momentos grandes, momentos maiores, momentos duradouros e momentos eternos, à medida que elas cresciam o amor diminua, o amor dava espaço à ingratidão.

Quando a minha bisneta nasceu, cedi meu quarto mais uma vez e fui jogada para o último quarto no quintal com vidros quebrados. Nas noites frias, o cobertor não impedia que o frio me tomasse o corpo. Rogava ao meu filho e minha nora que mudassem os vidros, mas, eles faziam ouvidos moucos.

Um dia, eu fui beijar minha bisneta, fui repelido pela minha neta que os “velhos” não deveriam beijar as crianças por falta de higiene e evitar doenças.

Certo dia, vi um alvoroço diferente na casa, logo, fui informada que a família iria passar o final de semana na praia. Arrumei-me, separei a roupa de banho, quando entraram em meu quarto, meu filho e minha nora avisaram-me que havia comida suficiente na geladeira e o carro não dava pra todo mundo... Chorei! Chorei! Chorei!...”

Os "velhos" são os invisíveis de fato de nossa sociedade, diferente de outras culturas orientais, o descaso com a pessoa idosa em nosso país é histórico. A família o esconde em sua própria casa e evita seu relacionamento social, não o deixa sair a pretexto de zelo, não o inclui em nenhum programa de lazer e férias. Quando a família tem recursos, abandona o idoso aos cuidadores ou num abrigo e não tem consciência que a raiz de todas as mazelas é a falta de carinho, de amizade, de amor.
Além do descaso ao idoso, os filhos, netos, bisnetos ou sobrinhos achacam ou desviam os proventos de sua aposentadoria ou outros recursos de seu patrimônio. Alguns filhos maus extorquem tanto seus idosos que o Ministério Público é acionado e se nomeia um curador de moral ilibada para acompanhar o interesse e o bem-estar do idoso.
O futuro mais próximo dos "velhinhos" é o cemitério, quem moço não morre, velho não escapa. Os filhos, netos, bisnetos e sobrinhos não praticam crime de dolo com os seus pais ou os seus avós, porém, eles os deixam morrer por desleixo, culpa, desprezo e falta de amor.
Roguemos ao Pai que o Estatuto do Idoso não seja letra morta. A família e a sociedade se conscientizem do respeito à fraqueza humana e à natureza finita. A Lei do Retorno é implacável, a velhice existe e o filho sempre tenha em mente: “eu sou você, amanhã”.


Autor: Rilvan B. Santana
Licença: Creative Commons
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 17/10/2021
Alterado em 17/10/2021


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Imagem de cabeçalho: Sergiu Bacioiu/flickr