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Malvado tempo - R. Santana

Malvado tempo
R. Santana

Naquela tarde de feriado, fiz uma visita a F. que se encontra internada num respeitável abrigo de minha cidade. Fi-la por insistência de meu cônjuge que também gostaria de ver M., sua prima. Não sou hipócrita nem demagogo para não dizer o que penso: não gosto de hospital, de cemitério, nem de casa de assistência social, não me sinto bem nesses lugares, às vezes, organizados, limpos, bem administrados, mas não deixam de ser lúgubres e funestos.
Nós passamos pelo corredor de entrada, fomos informados pela cuidadora de idosos: “os quartos de F. e M. ficam na última ala”; depois, passamos por um pátio interno que serve para atividades recreativas e banho de sol dos pacientes, enfim, chegamos ao apartamento de F. que não estava lá, encontramos M. que carinhosamente nos levou até F., reconhecemos a gafe de termos passado pelo pátio, cumprimentado F. e, não a reconhecemos.
Chocou-me, em particular, o aspecto de seu estado físico: chocha, mirrada, sem aura nem graça, curvada, peitos caídos, usando andadeira para se locomover, não parecia nem de longe a F. altiva, compenetrada, independente, inteligente, prosa boa, leitora contumaz e profissional comprometida da educação. Eu senti vergonha dos entreveros administrativos que tivemos na escola que trabalhamos em tempos dourados que se foram. Diretor dessa escola, personalidade perfeccionista, bati de frente com F. por questionar e não cumprir as minhas diretrizes administrativas.
Não sabemos nem interessamos saber a doença de F., porém, dever ser Alzheimer ou Parkinson. Falamos de Drummond, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Paulo Coelho, Jorge Amado, disse-nos que dos autores tupiniquins, lia com gosto Valdelice Pinheiro, Helena Borborema, as irmãs Benício, das crônicas históricas e humoradas de Dantinhas, Telmo Padilha e Firmino Rocha, ensaiou recitar: “Deram Fuzil ao Menino”. Sugerimos outros poetas e escritores da terra, mas, ela os negou com muxoxo de boca. Minha esposa voltou conversar com M., então, aproveitei o momento e aprofundei a conversa literária com F.
F. oscilava entre lucidez, devaneio e insanidade. Perguntou-me se sabia os requisitos para se candidatar a deputado estadual, respondi-lhe que não, ela insistiu que me inteirasse desses requisitos, pois seria candidata a deputada estadual na eleição vindoura. Noutro momento, perguntou-me o nome da doença de incontinência urinária, respondi-lhe que é enurese, ela completou: “mijo na cama quando elas não me dão fraldas”. Isto, levou-me pensar com os meus botões: “serei você amanhã”.
Eu saí de lá arrasado, minha resistência de frequentar esses lugares soturnos, tomou forma e consciência, prometi a mim e aos meus familiares que doravante, serei levado para esses lugares, a pulso, involuntariamente, não por vontade própria, não compreendo como filhos e filhas jogam seus pais e parentes nessas instituições e os esquecem lá pra sempre, por mais cuidadosas, altruístas, e sérias que elas sejam para comunidade. Essas casas de acolhimento de idosos, a maioria não é ruim em si, porém, jamais elas substituirão o afeto, a amizade e o amor dos filhos, de netos, de parentes e aderentes.
Ali, é um repositório de almas, não de gente. Ali, reconhece-se que os males são maus. Ali, reconhece-se que o tempo é malvado. O tempo traz o homem ao mundo, o faz crescer, o faz audacioso, alimenta seus sonhos na mocidade, realiza seus projetos na maturidade, destrói-o na velhice, depois, entrega-o nos braços da morte. Os mais velhos têm razão quando coisas que parecem impossíveis, dizem: “dê tempo ao tempo”. O tempo é o cutelo de Deus, o instrumento que Ele usa para cortar a trajetória do ser que criou, para fazer vê-lo sua insignificância e sua finitude. O tempo constrói, faz acontecer e, destrói. O tempo é mau, dissimulado de bom. O tempo é um deus! A lógica das coisas não o ignora.
Deus proteja F. e a mim não desampare, porque o significado da vida é questionável. Viver é bom, morrer é melhor. A fé é que alimenta a esperança do homem, mas o faz entorpecido lógico, assim como o ópio extraído das papoulas entorpece e embrutece os viciados de narcóticos. Triste do homem que não tem religião, não tem fé, pois seu suplício é maior no caminho da morte.
A decadência física é mais nociva do que a decadência moral, esta não tira o sono de alguns, enquanto a decadência física traz dor e sofrimento. A dor e a alienação tiram a dignidade do homem, o respeito a si mesmo. Todas as arrogâncias, todos os egoísmos, todas vaidades e todos os significados humanos caem por terra diante dum mal permanente. Nós estamos preparados pra vida, não para o sofrimento. Não existe autoestima duradoura quando o mal não tem remédio pra sua cura.
Sublimar a velhice ou racionalizá-la, não faz do homem velho, homem novo, mas diminui o pesadelo de que ele está no fim da vida. Ninguém gostaria de caminhar consciente pra morte, somente, os suicidas e os loucos, a chama da vida alimenta a alma, este é o papel de todas as religiões do planeta: assegurar ao homem que, aqui, é uma passagem e do lado de lá, a eternidade da vida.



Autoria: Rilvan Batista de Santana
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Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 04/05/2018
Alterado em 04/05/2018
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