Textos


Pedro, o Grande - R. Santana
 
Não, não, não falo de Pedro, o Grande, da Rússia, o Czar do Czarado, mas falo de Pedro Batista de Santana, de apelido “Pedro do Bar”, valente nordestino que deixou Lagarto no finais dos anos 40 e migrou para Ilhéus, Maria Jape, em cima dum pau-de-arara, não o pau-de-arara dos porões de governos discricionários no início do Século XX, mas num caminhão “Ford” ou “Chevrolet”, ou num caminhão “GMC”, adaptado com bancos de madeira (tábuas de 35 cm de largura, em horizontal, que eram travadas nas laterais da carroceria.

Pedro chegou ao Sul da Bahia, fugindo da seca e do trabalho estafante do cultivo e produção de fumo in natura em sua terra natal. Trazia na mala de couro curtido desenhado (o chique do chique da época), roupas de linho, cáqui, brim e uma única calça de casimira tropical que seu padrinho João de Juvência lhe presenteou no dia da viagem e, uma força indômita de vencer.

Em Maria Jape comeu “o pão que o Diabo amassou”, se não se valesse para seu sustento da fauna dos mangues e do rio Cachoeira, ou rapadura com charqueada e farinha seca do Japu e de Buerarema, ele teria morrido de fome. Seu primeiro emprego, se tirar madeira na mata para fazer feixe de lenha (não havia gás de cozinha, todos cozinhavam com lenha), pra vender na feira-livre de Ilhéus, é considerado emprego, foi aí que ele começou em terras grapiúnas.

Se algum pesquisador da História do Bairro São Caetano, for honesto e competente, lhe elegerá como principal fundador deste bairro itabunense. Claro que o fundador oficial foi José Batista Caetano, depois, na linha sucessória, seus ociosos filhos: Peó e Zezinho. Eram negros cordatos, amigos, direitos, mas onde pisavam, o capim morria, viviam no ócio do aforamento dos terrenos do bairro e sustentaram um litígio judicial por mais de 20 anos com Dr. Durval Guedes de Pinho, pela titularidade e reconhecimento de propriedade das terras do bairro, mas perderam a causa e o patrimônio com as custas de advogados.

Pedro chegou à Itabuna no ano de 1949, quando São Caetano não era São Caetano, mas “Fuminho”. Aliás, há uma estória folclórica no início do bairro: contavam os antigos que quando ainda não existia a ponte Francisco Lacerda sobre o Rio Cachoeira, 2 ladrões roubaram na cidade, umas bolas de fumo e se homiziaram, depois duma travessia perigosa no Cachoeira (nessa época o rio não era poluído, era caudaloso com grandes correntes de água, atravessá-lo de canoa e carregada, era uma epopeia), e esconderam o produto do roubo nesse bairro que não passava de um pequeno vilarejo com meia dúzia de casebres de famílias e de putas, mais de putas do que de famílias, além de muita mata e roças de cacau.

A polícia encontrou os ladrões, também, o produto do roubo e o vilarejo passou ser conhecido por “Fuminho”, alguns anos depois, em homenagem ao fundador, José Batista Caetano, e o fato das terras possuírem grande quantidade de plantas de São Caetano, o bairro foi batizado com este nome.

Pedro sempre foi um empreendedor, um negociante nato, desde menino, ele ia pra feira-livre de Lagarto com 1 litro de cachaça, vendê-la a varejo. Quando saiu de Maria Jape e chegou ao “Fuminho”, logo, comprou um quiosque e fê-lo ponto comercial e residência. O quiosque tinha de tudo, desde o fósforo à carne-de-sol, a farinha, o toucinho e o feijão. Pouco depois, passou construir pequenas casas e vendi-as com facilidade, pois o bairro crescia a olhos vistos.

Pedro tinha compromisso moral em Lagarto: lá deixou uma noiva. A despeito dos comentários desairosos, que ele não voltaria para honrar esse compromisso matrimonial (tinha fama de namorador e raparigueiro), voltou 6 anos depois e se casou com a jovem Celsa que o esperou por todo esse tempo. Ele não podia ter feito coisa melhor, tirou a sorte grande, porque, desde o início do casamento, ela demonstrou determinação, fidelidade, generosidade e trabalhadora. Depois do casamento, os seus negócios cresceram e ele passou ter não só um pé-de-meia, mas, dois pés-de-meia.

Os filhos vieram, todos cresceram no trabalho e no estudo, hoje, o mais velho é engenheiro agrônomo, o do meio, juiz de direito e, o mais novo, administrador e aposentado pelo Banco do Brasil. Não foram criados com mimos e vícios, mas na labuta do dia a dia. Desde cedo, os pais lhes ensinaram que a vida se baseia num tripé: conhecimento, respeito ao outro e Deus.

O “Bar de Pedro” surgiu em 1957, com 2 sinuques, mesas de dominós, um arremedo de lanchonete e algum tempo depois, uma sorveteria, na esquina da Avenida Princesa Isabel, 1020, São Caetano. Não demorou muito, tornou-se o principal point e referência de endereço, aqui, ali e alhures - o sujeito em São Paulo, ensinava: “no Bar de Pedro, todos sabem onde moro”. Porém, foi no governo do Gal. Juracy Magalhães (1959 – 1963), que liberou geral o jogo de azar, o período mais próspero do “Bar de Pedro”, o dinheiro corria a rodo de cacifes, no final da noite, feito o caixa, havia uma dinheirama, isto ajudou que Pedro educasse todos os filhos e construísse um pequeno patrimônio.

O trabalho no bar era cansativo, se não fosse Celsa, sua esposa, que além “pé de boi”, fazia mingaus e doces para abastecer o bar como ninguém! Às 6 horas, quando a rotina do bar começava, Celsa já tinha pronto para seus fregueses, panelas de mingau de milho, de puba, arroz doce, bolos, canjicas, torradas, vitamina de banana ou abacate, chocolate, café, leite, etc.

No bar, não havia roleta. O jogo de baralho preenchia às necessidades dos jogadores contumazes, viciados, que jogavam dia e noite. Quantas vezes acordei no crepúsculo da madrugada e estava lá, Pedro, atento para que o cacife não fosse negligenciado.

Os jogadores são gozadores, principalmente, com os “perus”, lembro-me de “Crente” ou, “Gordo”. Não obstante “Crente” fosse de família abastada, sobrinho do pecuarista e deputado estadual Paulo Nunes, era um malandro, um gozador, cuja atividade principal era o jogo apostado de baralho, de sinuque, ou dominó. Possuía (Deus o tenha em sua misericórdia), uma língua ferina e facilidade para botar apelido mesmo quem já o tinha. Ele colocou: “Lubião” no negro Crispim; “Papagaio de Pirata” em Lopeu; “Maneta” em Zé Urubu”; “Mão-de-gato” em Altino; "Soldado Meganha" em Dico...

Certa feita, Lubião perdeu os últimos centavos no jogo de baralho, o sortudo foi “Crente” que limpou todos os parceiros, ao lhe solicitar ajuda financeira para reverter sua má sorte, “Crente” lhe propôs: “Se você comer aquela barata sem vomitar, eu lhe darei Cr$100,00 (cem cruzeiros), não é que o negro “Lubião” comeu a barata?! Pois sim, comeu a barata e fez da má sorte, a sorte grande, limpou todos os parceiros, inclusive, “Gordo”.

Pedro não fazia sua felicidade com a infelicidade do outro, o jogo de azar era uma atividade de maduros, de velhos, adolescentes, menores de 18 anos de idade, não jogavam, os jovens de 18 anos de idade e acima desta faixa etária, jogavam dominó e sinuca, mas esportivamente, nada de aposta, somente, o prazer de saber quem era o mais apto no taco de sinuque ou, no jogo de dominó, isto é, divertir-se, hobby...

Pedro, embora de poucas letras e pouco leitura, gosta de política, não somente a consciência cidadã, a polis de Aristóteles, o exercício de cidadania, a consciência de direitos e deveres, mas a política partidária. Por insistência de Daniel Gomes, filiou-se ao MDB, hoje, PMDB. Dentre os políticos de expressão da terra que apoiou, que pediu voto e votou: Simão Fiterman, Alcântara, Fernando Cordier, Pinheirinho, Oduque e Fernando Gomes (5 vezes eleito prefeito de Itabuna e 2 vezes deputado federal). Naquela época e ainda hoje, com a idade provecta de 90 anos, cultiva boas amizades políticas, não mais participa como antes das campanhas, porém, é o caudilho da família, seu pedido político pode ser avaliado, nunca desconsiderado. Eu sou em exemplo emblemático: ilustre desconhecido nos anos 70, comerciário e estudante de Filosofia, com sua indicação, fui um dos mais jovens vereadores do legislativo itabunense de 1970 pra cá, eleito pelo MDB, com 584 votos, o 3º. mais votado, depois de Orlando Lopes e Plínio de Almeida, águias da política daquelas eras. .

Nos governos de Oduque e Fernando Gomes, como chefe da patrulha mecânica, prestou um grande serviço à comunidade de Itabuna, principalmente, os menos favorecidos e os ribeirinhos em especial. Seu trabalho social foi e ainda é significativo, sem chamar a atenção, usa um dos mandamentos de Jesus Cristo: “Tu, porém, quando deres uma esmola ou ajuda, não deixes tua mão esquerda saber o que faz a direita” (Mateus 6:3).

Hoje, com 90 anos de idade, lúcido, aposentado, patrimônio considerável, filhos formados e independentes, netos e bisnetos, ainda trabalha em sua bodega, no fundo da única casa lotérica do Bairro São Caetano. Não mais trabalha para ganhar “o pão nosso de cada dia”, mas pelo hábito (segundo Santo Agostinho, o hábito é uma segunda natureza), para não ficar ocioso dentro de casa e os males da idade se agravarem.

Há 2 anos o destino lhe deu um tombo emocional, lhe quedou, jogou-o no chão, mas pouco e pouco, ele tenta soerguer-se, conformar-se, aceitar como fato inevitável de todos os seres vivos: a morte. Foi a morte que levou Josefa Batista de Santana, Celsa, aos 83 anos de vida e mais de 60 anos de vida conjugal. Celsa foi seu norte, seu “pé de boi”, mulher sem vaidade, sem exigência material ou financeira, esposa, mãe e amiga.

Enfim, que a História de Itabuna lhe faça justiça e o eleja o fundador do São Caetano, pois foi ele que aqui chegou nos anos 40, impulsionou o comércio, a construção civil, politicamente, trouxe energia elétrica e água encanada para o bairro, abriu ruas, elegeu os primeiros vereadores do bairro: Rilvan Santana e Eduardo Fonseca. Hoje, ele é nome de rua no Bairro Jaçanã, homenagem justa e merecida, pois ali, também, foi um dos pioneiros na formação desse bairro com Epaminondas Pinho Lima, porém, é o São Caetano que lhe deve 70 anos de pioneirismo e trabalho.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Nota Editorial:

Esta é a última crônica que faço para homenagear alguém. Fi-la, porque devia este modesto preito ao meu tio Pedro Batista de Santana e sua esposa, Josefa Batista de Santana, a saudosa Celsa.







 





 
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 07/02/2018
Alterado em 09/02/2018
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