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Alcântara - R. Santana

Alcântara
R. Santana

Eu o conheci na adolescência, ele já era um homem maduro. A meninada o apelidava de seu “Arranca”, os adultos seu “Alcântara”. Quando Alcântara chegava a algum lugar era uma festa, o povo o idolatrava. Foi o político mais popular e mais carismático da história de Itabuna. Ele era simpático, bem apessoado, de traços europeus. As moças e menos moças gostavam de receber afagos e galanteios de seu “Alcântara”, porém, tudo não passava de amizade de político, pois ele era fiel como um cão a Florisbela, para amigos e não amigos Dona Sarinha Alcântara.
José de Almeida Alcântara foi eleito prefeito de Itabuna, duas vezes, deputado estadual da Bahia, uma vez, não teve o mesmo desempenho quando prefeito, ele tinha talento para executar não para legislar, porém, foi atuante na defesa dos interesses da Região do Sul da Bahia. Findo seu mandato de deputado estadual, volta para sua terra e concorre de novo para eleição de prefeito com José Soares Pinheiro (Pinherinho), um filho da terra, um dos maiores líderes políticos, daquela época, além de empresário autorizado de revenda de automóveis da Willys, Pinheirinho era grande cacauicultor e pioneiro no cultivo da seringa no Sul da Bahia.
Pinheirinho foi presidente da câmara de vereadores por várias legislaturas. Não era má pessoa, contribuía material e financeiramente em várias obras sociais e programava outras, filantropo e empreendedor, porém, era de natureza afetada, introspectivo, não era político popular, não tinha intimidade com a pobreza quanto o seu adversário político José de Almeida Alcântara. Este, a elite e o empresariado da cidade consideravam-no populista e demagogo.
A campanha para prefeitura de Itabuna em 1966 ainda permanece na memória dos itabunenses daquela época: os ricos, os intelectuais e as forças conservadoras versus os pobres, as igrejas e a classe média. Pinheirinho fez uma campanha embasada em novo modelo de gestão pública: combate ao desperdício da coisa pública e à corrupção, planejamento dos recursos públicos, projetos comunitários, enxugamento do quadro de servidores comissionados e apadrinhados, promoção de concurso público, auditagem dos desvios de recursos financeiros das gestões anteriores e criação de novos postos de trabalho com a implantação de um parque industrial através de isenção de tributos por anos, apoio material, ou seja, de olho no aporte de capitais do Sul e Sudeste com o objetivo de desenvolver econômica e financeiramente a terra do cacau.
Alcântara fez sua campanha no que tinha feito em seu primeiro mandato de prefeito de Itabuna, na boa gestão do seu sucessor e afilhado político, o jovem engenheiro Félix Mendonça e no apoio político do deputado federal Antônio Carlos Magalhães (ACM), e em seu razoável desempenho na assembleia estadual baiana. Não obstante os adversários políticos tê-lo como demagogo, ele fez promessas de pé no chão, não foi megalômano, enfim, prometeu fazer o que não tinha feito na primeira gestão, terminar as obras que seu antecessor não teve tempo de terminá-las e promover políticas publicas que atendessem à demanda do povo.
Naquela época não havia agência de publicidade como hoje, que cuida da imagem do candidato até do que ele vai falar aos eleitores com base nos institutos de pesquisa, todavia, Pinheirinho assessorou-se das melhores cabeças da comunicação local. Seu “Staff” só tinha gente qualificada, intelectuais de escol, pessoas versadas em Política, Sociologia e Psicologia. As atitudes e reações coletivas eram estudadas e analisadas cientificamente. Ainda não existia a “Lei Falcão”, por isto, as principais emissoras de rádio da cidade e as melhores gráficas estavam engajadas na eleição do candidato José Soares Pinheiro a prefeito.
Os layouts de Pinheirinho das paginas de jornais, dos semanários, cartazes e outdoors chamavam a atenção dos eleitores pela criatividade, imagem do candidato, mensagens de efeitos administrativos e esteticamente perfeitos. Os brindes tinham o designer de um pé de pinheiro em copos, chaveiros, caixas de fósforos, isqueiros, canetas, lápis, etc. Os “santinhos” foram substituídos por fotos e pôsteres de tamanho pequeno, médio e grande.
Pinheirinho era um dos maiores oradores da cidade naqueles tempos idos, não possuía formação escolar completa, apenas, o Fundamental I, ou seja, o curso primário, porém, era um autodidata, um leitor contumaz, em sua residência, a biblioteca chamava a atenção pela quantidade de obras, em particular, livros de Economia, de Administração, Direito Tributário e Contabilidade Pública. Por conta do seu saber nessa área de conhecimento, ele era constantemente convidado para palestras em clubes de lojistas, grandes empresas, faculdades, maçonarias e prefeituras.
Naquela época, não havia showmício, o candidato a prefeito e os candidatos ao legislativo municipal, eram as principais atrações, cada candidato a vereador levava seus correligionários e seu “Staff”. No comício de Pinheirinho havia grande concentração de pessoas e automóveis, por isto, seus adversários debochavam: “se carro votasse, Pinheirinho estaria eleito!”, decerto, seu apoio vinha do eleitor da elite e dos intelectuais.
Alcântara não era nenhum abestalhado nem intelectual, mas possuía educação média, de boa família (um dos irmãos, desembargador da Bahia). Coletor (agente fiscal) aposentado do estado da Bahia quando concorreu à prefeitura itabunense pela primeira vez. Não era bom orador, mas era emotivo e prático, falava a linguagem do povo, conhecia todas suas necessidades e carências. Sua força política maior vinha do contato, do corpo-a-corpo. Quando chegava a alguma casa por mais humilde que fosse, ia até a cozinha xeretar e, não saía de lá sem provar um cafezinho ou triscar levemente numa cachacinha.
Nos comícios de Alcântara, se contavam os automóveis nos dedos das mãos e, automóveis não eram necessários para seus eleitores, eles iam a pé, de carroça, a cavalo, de jegue, de ônibus... Os comícios eram lotados de gente simples de todos os bairros: os bairros centrais, a periferia, os distritos e a área rural, o povo chegava aos montes, como formigas que saem apressadas de um formigueiro. Tudo que Alcântara falava o povo aplaudia insistentemente. Quando ele terminava o discurso, descia do palanque (carroceria de caminhão), se misturava com o povo, abraça um, afaga outro, beija uma criança, toma-a nos braços, aí o povo ia ao delírio: “É de colher!” / “É de colher!” / “É de colher!” / “Alcântara é o prefeito!”, ou, parodiando “Pisa na Fulô” de João do Vale:
“Pisa na fulô, pisa na fulô / Pisa na fulô / Alcântara já ganhou!
Um dia desses / Fui dançar lá em Perdizes / Na rua do Pinheiro / Eu gostei da brincadeira / Zé Pretinho era o tocador / Mas só tocava / Pisa na fulô / Alcântara já ganhou!
Não precisa me pagar / Mas por favor / Arranje outro tocador / Que eu também quero Pisa na fulô / Pisa na fulô / pisa na fulô / Alcântara já ganhou!” (bis)

Para o entendimento do nosso leitor, esclareço que a colher tornou-se símbolo das campanhas políticas de José de Almeida Alcântara e, foi construído na Praça Jardim do Ó, na entrada de Itabuna, início da Avenida Cinquentenário, um monumento que representa uma colher para se reportar à eleição de 1966: “Essa vai ser de colher”. Em 1994, a praça foi reurbanizada e o antigo símbolo foi substituído por um designer mais moderno, que não lembra a colher de seu “Alcântara”.
Pinheirinho foi derrotado na eleição de 1966 por significativa percentagem de votos. A elite não se conformou, desenterrou um processo administrativo (não havia a “Lei da Ficha Limpa”), do tempo que Alcântara era chefe da Coletoria de Itabuna. Conta-se que houve uma grande enchente no Rio Colônia / Rio Cachoeira, nos meados de 1950, e a população ribeirinha de Itapé (naquela época, distrito de Itabuna), foi muito prejudicada, os ribeirinhos perderam seus haveres e barracos, e ao invés dele encaminhar o pedido oficial de ajuda ao governo, usou o dinheiro da coletoria em mantimentos e agasalhos para socorrer os flagelados, depois, comunicou às autoridades responsáveis.
Uma comissão de mulheres da alta sociedade, dentre elas, uma cunhada de José Soares Pinheiro, a educadora Celina Bacelar, foi a Brasília com o processo a tiracolo do prefeito eleito, falar com o presidente e marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, cujo objetivo seria impedir a posse de Alcântara, pois estávamos no início da Revolução Militar de 1964, período discricionário e arbitrário da República. Porém, elas deram com a cara na porta, assim que chegaram ao palácio, encontraram o jovem deputado federal Antônio Carlos Magalhães (ACM), amicíssimo de Alcântara, pois lhe transferiu mais de 10.000 votos nessa eleição, ACM saiu de Itabuna, praticamente, eleito.
A zombaria foi geral na cidade. Os gozadores diziam que o presidente sugeriu que elas fossem cuidar dos seus lares e dos seus filhos ao invés de se envolverem em picuinhas políticas partidárias locais. Os mais gozadores afirmavam de pés juntos e mãos em oração que o presidente sugeriu-lhes que fossem procurar uma lavagem de roupa. Por outro lado, os correligionários do candidato derrotado afirmavam que as damas tinham sido bem tratadas, que o marechal foi cavalheiro, que havia as recebido bem e prometeu-lhes encaminhar o processo aos órgãos responsáveis para apuração devida.
Alcântara foi empossado prefeito. O “processo” deve ter ficado em algum arquivo no subsolo do palácio, ninguém falou mais no assunto, Castelo Branco morreu em 18 de julho de 1967 e José de Almeida Alcântara em 7 de abril de 1968.
Esta modesta crônica histórica não é tendenciosa e Jamais irá manchar a memória desses homens públicos que prestaram relevantes serviços a esta terra que já foi do cacau, portanto, faz-se necessário dizer que eles não se locupletaram de recursos públicos, a exemplo de propinas, caixa 2, desvios de dinheiro do povo, licitações viciadas, etc. Pinheirinho não ficou mais rico nem Alcântara deixou fortuna para seus herdeiros. A lisura e o zelo pela coisa pública eram preocupações de ambos.
O maior fenômeno eleitoral de Itabuna foi vencido pela lei da morte (infarto fulminante) prematura. Não desejo conjeturar o passado, porque não se profetiza o que já passou, diria que Alcântara morreu no poder como prêmio da Providência pelo seu amor às causas dos menos contemplados da vida, enquanto Pinheirinho teve como prêmio mais alguns anos de vida.
Enfim, se o céu é reservado para os homens bons e o inferno para os homens maus, Alcântara e Pinheirinho foram homens bons, logo, eles foram pra o ceu.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 29/11/2017
Alterado em 01/12/2017
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