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Premonição - R. Santana

Premonição
R. Santana
 
A chuva torrencial escorria na janela envidraçada da residência da família Caldas. O relâmpago de quando em vez iluminava o quarto e os pipocos dos trovões estremeciam o ambiente.
Sílvia e o seu sogro Luiz estavam aflitos, não sabiam como socorrer Oscar, àquela hora da noite, ele arfava cada vez mais ofegante em busca de ar. A filha do casal, de 4 anos de idade, era a única alheia àquela situação dramática, dormia profundo embalada pelos anjos.
O medo de Oscar era morrer no escuro, ainda cedo, tinha levado pra casa um pacote de velas de espermacete e uma caixa de fósforos, porém, no momento de um grande trovão, o “Aladim” que iluminava o quarto entrou em blackout e, o fósforo e as velas sumiram na bruma da noite, Oscar sussurrava no ouvido da esposa, rogava-lhe ar e luz.
Não há escuridão que a chama de uma vela não ilumine... Sílvia encontrou em suas bugigangas uma vela e um fósforo e a luz foi restabelecida de maneira precária e atendeu parcialmente ao rogo de Oscar, seu semblante iluminou-se, tudo seria remediado se a chuva desse uma trégua e as janelas pudessem, também, ser abertas e o ar aliviasse o moribundo.
Às 23 horas e 50 minutos daquele dia, o céu parou de chorar, as lágrimas, agora, escorriam fininhas, o trovão e o relâmpago fizeram as pazes, aí, o velho Luiz abriu de repente as vidraças e uma rajada de ar envolveu o quarto. Oscar sugava o ar com vontade, porém, a força do vento além de apagar a vela consumiu todo o fósforo nas mãos trêmulas de Sílvia, novamente, o blackout tomou conta da casa.
A pequena Tereza, perto da meia noite, choramingou quando o movimento no quarto elevou o ruído dos objetos, Sílvia como não mais tinha fósforo, esqueceu-se do marido por minutos e voltou-se para filha, aconchegando-a, para que ela não acordasse de uma vez e o socorro ao marido ficasse comprometido, mas a Providência intercedeu e a criança parou de choramingar e voltou a dormir como antes.
O quadro cardiorrespiratório de Oscar teve uma pequena melhora, com a corrente de ar que entrava e saía do quarto. O ritmo descompassado de sua respiração parecia, agora, normal o que não agradou ao experiente Luiz que viveu até aquela data, com o adágio popular na cabeça: “... todo doente pra morrer sente um alívio...”, não queria pensar na morte de Oscar, pois seria sua própria morte: filho e pai eram um só, o que um pensava o outro adivinhava, os dois eram unha e carne, jamais tiveram rusgas, a felicidade do filho completava a felicidade do pai e a felicidade do pai era sentida pelo filho.
Minutos eternos de normalidade para Oscar...


***

Estimado leitor, no ano de 1943, mês de agosto, dia 2, Oscar Caldas de terno de casimira azul, chapéu panamá branco, camisa branca de mangas compridas com abotoadoras de ouro, gravata, cinto de fivelas de ouro, sapatos pretos engraxados, orientava 5 carroceiros que atravessaram a ponte Góis Calmon, até avenida “Macuco”, onde ficava sua casa comercial, no bairro Nossa Senhora da Conceição, antiga Abissínia, na cidade itabunense. Os carroceiros descarregaram as carroças e ajudaram o negro Tuiúca arrumar as mercadorias no armazém, compradas do outro lado da cidade.
Quem não o conhecia diria que o moço iria pra um evento ou reunião de negócios pelos trajes impecáveis, quem o conhecia no dia a dia, diria, apenas, que naquele dia, ele tinha exagerado, dado um toque a mais, porém, o terno e o chapéu panamá eram rotina em sua vida, às vezes, mais relaxado, ele dispensava a gravata. Sua elegância era admirada por conhecidos e não conhecidos, tanto que o negro Tuiúca o apelidara: “Il Príncipe”.
Esse traje almofadinha o tinha livrado de morrer 2 meses antes: um sujeito quase decepa o seu pescoço pra lhe roubar. A gola alta de sua camisa amorteceu o golpe. Mesmo com os cuidados do médico Dr. Moisés Hage que lhe atendeu de pronto, ele perdeu muito sangue.
Oscar, meses depois, consultou o médico Dr. Victor Maron sobre sua saúde, pois ele vinha sentido um desconforto no peito e ouviu do médico a recomendação:
- Oscar, trabalhe menos. O nosso coração é uma bomba natural, se recebe uma sobrecarga, tende a pifar... – o médico assustou-se com a infausta resposta:
- Doutor, não passo deste mês!
- Não se agoure, meu caro, você ainda é moço!...
Naquele dia, no finalzinho da tarde, depois do armazém arrumado, as mercadorias nos devidos lugares, prateleiras cheias e o que sobrou armazenado no depósito, Oscar chama a esposa para os fundos do armazém e inicia uma conversa estranha:
- Sílvia, eu não estou bem... Chame meu pai! – a esposa suaviza:
- Querido, não é nada... – Oscar deixa-a assustada:
- Sílvia, não me deixe morrer no escuro!
- Poupe-me desta conversa!...
 
***

Naquele dia, 02 de agosto de 1943, às 23 horas e 58 cinquenta e oito minutos, a chuva voltou abundante, o velho Luiz correu pra fechar as vidraças enquanto Sílvia afagava o marido. Os relâmpagos anunciaram novas trovoadas, mais estrondosas. O tempo fechou...
Às 23 horas e 59 minutos, um relâmpago demorou alguns segundos e iluminou todo o quarto. Luiz e Sílvia juntos de Oscar foram testemunhas dos seus últimos estertores. Luiz não suportou tamanha perda, tombou sobre a cama e foi amparado por Sílvia - Luiz foi sepultado no mesmo dia do seu filho e Dr. Victor Maron o atestou vítima de AVC fulminante.
O presságio de Oscar se confirmou. Um relâmpago foi providencial para que ele não morresse no escuro.
 
***


Dias depois, a pequenina Tereza dizia vê-lo:
- Papai voltou mamãe!!!





Autor: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 21/06/2017
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