Textos


Saudosismo? Não!...
R. Santana

     Os jovens dizem que saudosismo é “coisa de velho”, que “recordar o passado é sofrer duas vezes”, “museu é que vive de passado” etc., etc., portanto, é uma temeridade escrever sobre o passado, mas o presente é o futuro de ontem e o futuro é o presente do passado. O presente é o momento, o futuro é potencial, só o passado é real.
     O homem vive num eterno conflito entre preservar o passado e caminhar para o futuro. Os palácios, as mansões, as casas automatizadas, as casas eletrônicas e as casas gradeadas não trazem a segurança e o conforto tão desejáveis ao homem moderno. Hoje, não é mais exceção, homens de sucesso, artistas, largarem glamour, riqueza e poder e optar por uma vida mais natural e mais simples, porém, mais feliz...
     O tempo de vida do homem aumentou não em decorrência dos remédios artificiais, tradicionais, alopáticos, homeopáticos, mas pela consciência de novos hábitos de higiene, reeducação alimentar e reeducação física do homem moderno. A educação alimentar e os hábitos saudáveis de higiene desde cedo, ainda na barriga da mãe, são decisivos na prevenção, numa boa imunidade imunológica e na cura de doenças adquiridas, não genéticas. Hoje, a ciência médica, pouco e pouco, recorre às terapias alternativas naturais aos tratamentos tradicionais.
     Não existe nenhum remédio farmacológico no trato de qualquer doença que não apresente efeito colateral, por menos nocivo que seja, de vez em quando, quando o tratamento é demorado, além de não curar o indivíduo, contribui para o surgimento de novas doenças, por isto, é comum às pessoas mais velhas recorrerem aos chás caseiros para tratamento de suas doenças.
     Hoje, não se vive bem na cidade nem na área rural como antigamente, os crimes, os roubos e outras modalidades de violência grassam em todos os lugares. Tempos idos em que os vizinhos papeavam no passeio de suas casas nas noites de verão ou fazendeiros deixavam suas casas na cidade, nas férias escolares, para o gozo e o sossego de seus familiares na fazenda.
     Vai longe o tempo de um café na fazenda com cuscuz, milho cozido, leite, inhame, aipim, ovos estrelados, carne frita, café moído no pilão, melancia, manga, laranja; então, um farto almoço com buchada de carneiro e pirão; ou, uma gostosa feijoada com lingüiça, jabá, pés e costelas de porco, toucinho e verduras em abundância.
     Hoje, as comidas das fazendas não são mais naturais e são menos gostosas e insípidas do que as comidas das cidades de frangos e carnes inchadas de hormônios e verduras crescidas com herbicidas e fungicidas. Nos Shoppings, nas pizzarias, os sanduíches, as massas, os sorvetes, os chocolates e outras guloseimas modernas dão o tom falso da nutrição e contribuem para adolescentes com doenças de velhos.
     As amantes atuais nunca ouviram uma serenata. É exceção uma amante, hoje, ouvir do aconchego de sua alcova, no meio da noite, o seu amado embaixo da janela cantando músicas inebriadas de romantismo e amor. As serenatas, as declarações de amor, foram substituídas pelas danceterias e clubes noturnos, com músicas barulhentas, letras sem significado e inaudíveis, regadas de bebidas e drogas. Às vezes, amadas e amantes terminam a noite numa delegacia de polícia...
     As declarações poéticas, os saraus, os luaus, a dança de Fred Staire, o teatro e os concertos noturnos foram substituídos pelos programas e filmes supérfluos de televisão, pelas danças eróticas de bumbuns valorizados, pelos filmes pornográficos e pelas culturas supérfluas.
     O advento das especificações e da tecnologia ao invés de contribuir para formar profissionais preparados, qualificados, contribuiu para formar profissionais bitolados, despreparados que não enxergam um palmo diante do nariz, sujeitos a erros constantes e irreversíveis, principalmente, os profissionais que lidam com a vida e a morte, a construção civil e os direitos do homem. É sabido que seria impossível, nos dias atuais, o saber ser patrimônio dum sujeito, mas é nocivo para humanidade, esquartejar e inflacionar o conhecimento.
     O surgimento dessas especialidades profissionais e o avanço dessas tecnologias produziram uma falsa qualificação profissional. Hoje, os profissionais de formação intelectual só atuam em interdisciplinaridade, em interdependência, eles não possuem luz própria, não têm cultura geral, são comuns erros profissionais grosseiros, desastrosos, em decorrência dessa limitação do saber.
     Não é justo hoje, a apologia da caligrafia, da tabuada, do quadro-giz, porém, condena-se o uso mecânico, automático, sem elaboração mental, com dependência das máquinas eletrônicas, dos softwares, da internet, da informática. Faz-se necessário dizer que esses inventos contribuíram para democratizar o conhecimento, torná-lo mais acessível e erradicar o domínio intelectual, o mal é que o homem ainda não aprendeu usá-los.
     Se não é justo ressuscitar o tempo da tabuada, da caligrafia, da lousa e do giz, dos métodos não convencionais de aprendizagem, nem condenar a democratização do conhecimento com a informatização, a internet, os bancos de dados e a parafernália eletrônica, é justo e faz-se necessário alertar o homem para o uso indevido desses instrumentos modernos da aprendizagem e do conhecimento.
     Certamente, marchamos para um futuro de homens de cérebros, pensadores, detentores do conhecimento, com domínio intelectual, e, homens sem “cérebros”, não pensantes, automatizados, robotizados, apenas, repetidores de ações pré-elaboradas, sem esforço mental...
     Por isso, não se aceita o estigma de saudosista, de velho, de museu, de brechó quando alguém se lembra de velhos tempos em que o homem era um ser pensante, mais simples, mais natural, que se autodeterminava e não deixava para outrem a construção e o controle do seu conhecimento e de suas ações, portanto, é justo responder a alguém de pronto:
     - Saudosismo? Não!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Academia de Letras de Itabuna - ALITA
LIcença: Creative Commons
Imagem: Google

 
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 12/08/2012
Alterado em 02/04/2024


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Imagem de cabeçalho: Sergiu Bacioiu/flickr