Textos


A trama da vida
A trama da vida
R. Santana


I

O salão fúnebre da Funerária Santa Fé ficou pequeno pela aglomeração de parentes e amigos a velar o corpo de Carlito, vítima fatal de um assaltante, naquele momento, ainda não identificado e preso.
Carlos André Almeida nos documentos e Carlito para todos, era casado há pouco mais de um ano e o destino lhe foi ingrato não deixá-lo ver o filho nascer que por coincidência não explicada, nasceu na madrugada do seu passamento.
Diz o povo que Deus não chama para o seu seio os maus, mas os bons, no caso de Carlito, justificam-se os dizeres populares e Carlito naquela hora, deveria estar nos braços de Jesus Cristo para que os seus amigos e parentes aceitassem sem desespero esse acontecimento funesto.
Amigo de todos, ótimo filho, irmão exemplar, marido incomum, não merecia aquele trágico fim, menos ainda, não ter visto o seu filho chegar ao mundo, vê-lo andando pela casa traquinando, vê-lo balbuciar as primeiras sílabas e chorar de birra nos braços da mãe, rejeitando a mamadeira e querendo peito, decerto, o mundo lhe pregou uma maldade através de uma mão criminosa.
Carol, sua jovem esposa, estava no mês de parir, não obstante faltarem alguns dias em seu calendário pra que ela desembuchasse o rebento, o choque da morte do marido e companheiro, rompeu-lhe a bolsa, precipitou-se o parto, e quase semiconsciente, em estado de choque, foi levada às pressas para maternidade e deu à luz.
Jovens brincalhões, afáveis moleques, conquistavam com facilidade o mais recalcitrante sisudo. Sua Casa sempre de portas abertas nos finais de semana e dias festivos. Eles pareciam viver uma eterna felicidade e se algo não lhes ia bem, não estragavam o ócio dos amigos ou vizinhos com queixumes, se a necessidade insistisse, no máximo, recorriam às suas famílias.
Domingo era o dia do Senhor. Cedo ainda, de braços dados, eles desciam a Rua 15 Novembro até a Igreja Nossa Senhora das Graças, Lhe prestar culto e amor.
Eram requisitados pra aqui e acolá, mais que bouquet de noiva pelas solteironas... Carlito e Carol gostavam das benesses da vida e Carlito mais do que Carol, ambos mais do que muita gente.


II

A miséria é filha da pobreza e neta da necessidade. O pobre é aquele que não perde de vista o supérfluo ou o sonho sem deixar de perseguir as condições necessárias para sua subsistência. O miserável é aquele que além de não sonhar, não tem supérfluo, perdeu a vontade de lutar, perdeu a esperança e a vontade de viver, para o miserável não existe projeto.
Clô tinha prendido Kaka pela beleza. Bonitona, traseiro reforçado, airbag grande sem ser exagerado, cor de canela, cabelos ruivos, altura mediana e rosto suave. Não era casada no papel com o bonitão Kaka, mas depois de três filhos e cinco anos comendo farinha juntos, é como se fosse casada.
Kaka também não era de se jogar fora, além de ser amigo, esportista, bom papo, inteligente e sociável. Há dois anos, ele e Clô vinham passando dificuldades de sobrevivência, depois que Kaka perdeu o emprego e, na esteira do desemprego, a doença do filho mais novo.
Juninho, ultimamente, não passava uma semana que não fosse levado às pressas a postos de saúde e hospitais com problemas de saúde. Juninho chegou ao mundo doente após um parto sofrido e prematuro parto de Clô. Desde os primeiros meses, ele não dava trégua às farmácias e aos bolsos sofridos e esgotados dos seus pais. Vulgarmente, dir-se-ia que o último filho de Kaka e Clô fosse uma rapa de tacho por ser o último - Clô ligou com o nascimento do filho caçula.
Naquela tarde, o garoto teve mais uma crise, levado ao posto de saúde mais próximo, receitado e medicado, voltou para casa com uma receita para que os pais providenciassem os remédios e dessem curso ao tratamento.

III

Sexta-feira, final de semana, noitada promissora, barzinhos superlotados, música ao vivo e mecânica, boates concorridas, era o cenário que se desenhava na cabeça de Carlito. Porém, naquela semana, ele e Carol tinham decidido não curtir as noitadas e ficarem em casa, pois, Juninho – nome escolhido por ambos - já dava mostras de impaciência na barriga da mãe, não tardaria ele botar a cabeça pra fora e saltar para o mundo...
Carlito ficou preso, depois do expediente, às obrigações daquele dia, por conta de uma sobra de caixa. Funcionário do Banco – X, empregado responsável, meticuloso, não deixaria o banco enquanto não descobrisse o erro, procedimento comum quando a necessidade surgia.
Às 20h: 45m, daquela fatídica sexta-feira do ano 2000, do mês das noivas, quando Carlito deixou o banco. As ruas do centro de Itabuna começavam ficar erma e despovoada, salvo, o movimento dos carros com os seus faróis cuspindo luz, vez ou outra se encontrava uma viva alma, com exceção dos moradores de rua que se encontravam aos montões deitados nos passeios das marquises enrolados em trapos, geralmente, moleques e bebuns, quando a entrar num beco de uma rua estreita, Carlito é colhido de surpresa por um homem que lhe cutuca as costas com um revólver:
-Passe a carteira!!! – Carlito adquire força para adverti-lo:
-Cuidado, companheiro, a polícia faz ronda aqui!
-Deixe de conversa mole, passe o dinheiro!
-Calma, tome a cart...– Carlito pressentiu que o homem tremia, reagiu...

IV

Kaka chorava abraçado ao corpo inerte do filho. Não o vira partir, o remorso corroia-lhe a alma, culpava-se por não ter trazido a tempo os remédios. Clô ao seu lado, minimizava o seu sofrimento, usava as palavras mais confortadoras, inclusive, dava-lhe como exemplo sua dor de mãe e acrescentava que ninguém tinha culpa de nada, vontade de Deus, assim ou assado, fora dado toda assistência médica ao moleque. Ele, Kaka, não poderia culpar-se por não ter comprado os remédios imediatamente, conhecia e partilhava de suas dificuldades financeiras dia-a-dia, e, não obstante ele está desempregado algum tempo, virava-se como podia para que ela e os filhos tivessem o mínimo pra sobreviver.

V

A polícia foi rápida na identificação do suspeito. Todo crime é chocante, porém, a covardia do crime do bancário revoltou a sociedade itabunense e os meios de comunicação ecoaram de imediato esse clamor social a vítima ainda insepulta.

VI

Clô desabou... Os amigos e vizinhos de Kaka ficaram estupefatos e confusos quando a polícia adentrou sua casa e o algemou, causando tumulto, não respeitando as pessoas presentes e as circunstâncias fúnebres.
Houve um pálido movimento de reação, mas tudo voltou ao normal quando o delegado informou aos circunstantes, os fortes indícios que apontavam Kaka como o criminoso do bancário Carlito.
Uma semana depois, o jornal “O Matutino”, trouxe em sua página principal a triste manchete com letras graúdas:

“KAKA SUICIDA-SE E PEDE PERDÃO...”

A página policial completava a manchete da primeira página esclarecendo que o principal suspeito deixou um bilhete pedindo perdão à família de Carlito, que não queria matá-lo, foi um acidente, tinha sido vítima da necessidade, das circunstâncias, dos homens, da trama da vida...
Para consolo da viúva (se fosse possível consolar-lhe), lembrava-lhe que ela perdera o marido, mas dera à luz Juninho e faria sonhos acontecer, enquanto Clô perdera Juninho, lhe perderia, herdaria necessidade e sofrimento e não faria os sonhos acontecer.
A pobreza é romântica no coração dos ingênuos e dos incautos. Porém, ela tira oportunidades, separa pessoas, destrói sonhos e inviabiliza projetos.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: Conto (registrado)
Itabuna (Ba)
 
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 12/07/2012
Alterado em 03/08/2012


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Imagem de cabeçalho: Sergiu Bacioiu/flickr